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A ÁGUA DA CHUVA É MAIS BARATA

Atrevo-me afirmar que no Nordeste chove até demais. Falta apenas reflorestar, reter e distribuir as águas. A água da chuva não requer bombeamento, nem canalização. E onde há floresta chove e não falta água para as lavouras, criações e para o homem. Sem custosas transposições.

Lembro-me da serra de Pirauá em Macaparana, onde nasci. Havia mananciais e riachos para todos os lados. Aquela cidade era a mais bem iluminada do Estado com a sua pequena hidroelétrica instalada no riacho Macapá. Naquele tempo prevalecia o bom senso dos fazendeiros e senhores de engenho que não permitiam a destruição de suas matas e mantinham os cafezais bem arborizados. A mata atlântica coroava as colinas e nos meses de frio a nevoa (é nevoa mesmo) encobria a paisagem.

O meu avô, do Engenho Monte Alegre Velho, não permitia a derrubada de uma só arvore.
Quando o forte vento de julho, derrubava uma, então ele mandava aproveitá-la. De uma feita, presenciamos repreender severamente um morador que cortara uma jovem árvore chamada “Baraúna”. O morador então disse: “Seu Chano, o senhor jamais usaria esta baraúna.” De pronto, meu avô respondeu: “Eu não, porém meus bisnetos, certamente. Eis aí como pensava um velho senhor de engenho que não estudara ecologia, mas tinha a alma ligada à terra que, para ele, também pertencia a sua descendência.

Na Serra de Mascarenha, no vizinho município de São Vicente do Ferrer, o solo é, até hoje, permanentemente úmido pela abundância da água. É que ali, o resto de mata atlântica foi protegido pela ação do Estado. O então interventor, Agamenon Magalhães, que tinha profunda visão administrativa e social, por decreto, desapropriou a porção da mata atlântica ainda existente e mandou a policia protegê-la.

O histórico exemplo daquele governante deveria induzir as administrações correntes a proteger as matas, reflorestar e reter as águas que correm para o mar. O maior problema nacional, a nosso ver, é a degradação do solo, a desertificação, e outros crimes ecológicos. O que herdarão as gerações futuras? Sem água não há vida.

O manto verde atrai a chuva. A evidência disso está espelhada nas áreas ainda encobertas de matas que podemos ver em muitos municípios nordestinos onde de janeiro a dezembro a água é permanente. São os chamados brejos, verdadeiros oásis a atestar a viabilidade econômica do Nordeste e sua salvação.

Na nossa memória está o murmurar dos riachos ao redor da casa grande do Engenho Conceição onde nascemos. Todas as dependências dali recebiam água potável por gravidade. Era só abrir as torneiras. Existiam pequenos criatórios. Os pomares frutificavam o ano todo. Ninguém passava fome. Era o verdadeiro “Fome Zero”.

Cadê essas generosidades da natureza. O homem destruiu. Das serras verdejantes, só restam os campos estorricados e taperas desabitadas. “Impiedosamente, nem uma gota d’água cai do céu durante meses e meses” e nem brota da terra. Tudo está seco. Sem água e sem trabalho os camponeses se foram para as favelas engrossar a marginalidade e suas funestas conseqüências.

Até quando, Oh Céus!

Paulo em suas cartas às igrejas de seu campo de evangelização se revelava um ecologista e apregoava: “A terra é de Deus e tudo que nela há.” (Cor. 10, 26) O apóstolo ainda ensinava: “Não é possível receber a terra e seus frutos e não cuidar dela” (1 Cap. 10 ). E mais junto de nós, no tempo e no espaço, em linguagem simples, temos:

OS CONSELHOS DO PADRE CÍCERO

· Não toque fogo no roçado, nem na caatinga;
· Não cace mais e deixe os bichos viverem;
· Não crie o boi, nem os bodes soltos, faça cercado e deixe o pasto se refazer;
· Não plante de serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé, deixe o mato protegendo a terra para que a água não arraste e não se perca a sua riqueza;
· Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar a água da chuva;
· Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedras soltas;
· Plante cada dia, pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;
· Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a seca;
· Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer;
· Mas se não obedecer, dentro de pouco tempo vai virar um deserto só.

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"A infância nos engenhos do pai e dos avós, em Macaparana, e a convivência com a gente simples do lugar, marcada pela solidariedade, ajudaram Narcides Andrade de Araújo a crescer com os olhos no futuro e o coração no social. É do tipo que acha que se a vida é um presente de Deus, sempre haverá o que fazer pelo próximo. Sempre em dia com a leitura, seu Narcides descobriu cedo o valor da educação. Mas o centro dele é a família. Aos três filhos, deu o mesmo valioso presente que recebeu do pai - educação - e acertou em cheio. Nunca criaram problema, pelo contrário: responderam com seguidas recompensas. Portanto, o tranqüilo Narcides acha que não tem do que reclamar e segue buscando viver mais e melhor com uma receita que considera infalível: ocupando a cabeça com projetos, muitos projetos." Parte de texto publicado no jornal Diário de Pernambuco, em 12 de Março de 2006.