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Nossa burra Maroca

Os Semoventes do Meu Pai

No Engenho Conceição, na Serra do Pirauá, pertencente a meu pai, chamado Seu Toinho de Conceição, todos os animais eram tratados como seres humanos.

Ali não era permitido o uso de chibata e de espora. Um animal doente era recolhido à estribaria, onde recebia o melhor tratamento: capim verde bem picado, milho e água pura adoçada com mel. Seu Toinho era o veterinário. Cada animal era chamado pelo seu nome: Maroca, Sabiá, Dengoso, Macaco, Brilhante, Tupi, Estrelinha, Rosilho e tantos outros.

Em 1937, Seu Toinho arrendou o Engenho Conceição e fomos morar em Campina Grande, onde poderíamos continuar a educação dos onze filhos. E assim, partimos todos para aquele pico do Planalto da Borborema.

O arrendatário, José Leitão de Melo, senhor da melhor estirpe, cristão católico imaculado, resolveu mostrar que também tratava dos animais com maior esmero. E por isso, mandou o velho morador, Serafim, à Campina Grande, montado na burra Maroca sem chibata e sem espora. E qual não foi a nossa surpresa quando vimos chegar, ao meio dia, o velho Serafim, antigo morador do Engenho, montado na burra, no meio de dois caçoais com laranjas colhidas do pomar que circundava a casa grande do engenho.

Ajudamos o descarrego, água foi dada a burra e minha mãe logo chamou o velho Serafim para almoçar. Ao entardecer a burra foi levada para pernoitar no cercado de um amigo e assim, no dia seguinte, descansada, retornar ao engenho na Serra do Pirauá.

No dia seguinte, bem cedinho, Serafim chegou à fazenda onde a burra pernoitou e com surpresa verificou que ela havia aberto a porteira e fugido. O arrendatário do engenho foi avisado e também anúncios foram publicados na imprensa local. Ninguém viu o procurado animal. Tudo debalde.

Decorridos dois anos ou mais, o reverendo João Clímaco Ximenes, pastor da Igreja Congregacional de Campina Grande, a maior do Brasil, admirado pela sua capacidade de liderança e irredutível disciplinador, na ausência do seu motorista efetivo, convidou meu pai para conduzi-lo no Ford 29 à vila de Galante, onde visitaria a congregação local.

Após a escola dominical e o culto, fomos convidados para almoçar um bom cozido bovino na casa grande de uma fazenda, localizada na ponta da rua. Sentados no alpendre daquela casa, a conversa versava em torno das atividades daquele campo evangélico. Como era de praxe, gente da minha idade ficava calada. Nem um piu.

Eis que, de repente, pulei do banco, corri para o terreiro e gritei: “Lá vem um vaqueiro, no cimo daquele monte, montado na nossa burra Maroca.” Em face da distância todos ali ficaram admirados com a minha capacidade de reconhecer o animal.

Provado ao fazendeiro que se tratava mesmo da burra Maroca, conforme indicava o ferro (AJS), ele liberou o retorno dela ao Engenho Conceição. O arrendatário, José Leitão de Melo, foi avisado e logo mandou o mesmo Serafim buscar a burra Maroca.

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"A infância nos engenhos do pai e dos avós, em Macaparana, e a convivência com a gente simples do lugar, marcada pela solidariedade, ajudaram Narcides Andrade de Araújo a crescer com os olhos no futuro e o coração no social. É do tipo que acha que se a vida é um presente de Deus, sempre haverá o que fazer pelo próximo. Sempre em dia com a leitura, seu Narcides descobriu cedo o valor da educação. Mas o centro dele é a família. Aos três filhos, deu o mesmo valioso presente que recebeu do pai - educação - e acertou em cheio. Nunca criaram problema, pelo contrário: responderam com seguidas recompensas. Portanto, o tranqüilo Narcides acha que não tem do que reclamar e segue buscando viver mais e melhor com uma receita que considera infalível: ocupando a cabeça com projetos, muitos projetos." Parte de texto publicado no jornal Diário de Pernambuco, em 12 de Março de 2006.