Memórias e Talentos

O Companheiro do Banho de Mar – Rubens Dantas

Fevereiro, 2025

Conheci Seu Araújo por acaso, dentro d’água. Eu já era amigo do filho dele, Maurício.   Estudamos na UFPE, entramos em 1974, ele em Engenharia Mecânica e eu em Civil. Mas foi o pai quem virou meu companheiro de fim de tarde na praia. Ele costumava tomar banho de mar no final do dia, para fugir do sol forte, e eu também. Um dia o vi, chapéu na cabeça, sozinho no mar calmo de Maria Farinha. Aproximei-me para puxar conversa, sem nem imaginar que era o pai de Maurício. A partir dali, a prosa nunca mais terminou. Depois é que o próprio Maurício brincou: “Rapaz, tu ficaste mais amigo do meu pai do que de mim”.

Nosso convívio foi basicamente de praia. Foram dois verões intensos, quase todo fim de semana, conversando mais de uma hora dentro d’água. Era um diálogo que passeava por tudo – família, notícias, hábitos, música –, mas sobretudo por agricultura, tema que o encantava. Eu tinha um sítio pequeno ali por perto, plantava banana, criava umas galinhas, cabras, coelhos. Ele se animava com isso e vinha com dicas precisas: fungos, larvas, pragas de bananeira. Chegamos a ir juntos ao sítio uma vez, ele, eu e Maurício. Foi um dia agradabilíssimo. Lembro que eu estava às voltas com folhas amareladas nas bananeiras, ele ficou de pesquisar uma solução… e pouco depois veio a notícia do seu falecimento, de modo que essa conversa ficou em suspenso.

O traço que mais me impressionava nele era a defesa convincente da agricultura familiar. Dizia que, se cada um tivesse um pedacinho de terra para plantar sua macaxeira, seu inhame, a fome desapareceria. Falava com orgulho do trabalho com sementes de jerimum torradas –  o processo, os clientes, os pontos de venda –, e fazia disso uma ocupação cheia de sentido: era saudável, útil aos outros e mantinha a cabeça ativa. Tinha sempre uma opinião bem fundamentada sobre qualquer assunto e uma erudição espantosa, dessas de autodidata aplicado. 

A nossa amizade nasceu fácil. Talvez porque eu tenha perdido meu pai aos 15 anos e, sem perceber, sempre tenha buscado conversar com pessoas mais velhas. Com Seu Araújo, eu sentia uma presença boa, um “ponto seguro”. Qualquer tema rendia uma conversa útil, leve, otimista. Eu chegava à praia já com perguntas sobre meus bichos, minhas plantas, ansioso para ouvir as soluções que ele sacava. Era engraçado. Ele não era de visitas demoradas em casa de ninguém, nem eu cheguei a frequentar a dele. O nosso território era a água, aquele mar manso em que a conversa corria solta até escurecer.

Ele se orgulhava muito da família e falava com carinho da esposa e dos filhos. Tinha uma alegria serena de quem trabalhou a vida inteira com gosto e estava, ali, colhendo o melhor da sabedoria acumulada. Me marcou muito o zelo com que pensava no bem dos outros. Generosidade, aliás, era palavra que combinava com ele. Fazia, resolvia, ajudava.

Quando soube da sua morte, foi um choque. Eu não tinha ideia de que estivesse doente. Sempre o vi forte, cuidadoso com a saúde, orgulhoso de manter o peso estável. Passado o tempo, ficou em mim um hábito: até hoje, quando rezo por meu pai, minha mãe, meus tios e amigos, incluo Seu Araújo. Apesar de termos convivido, no máximo, dois anos, ele entrou para a minha lista íntima de orações. É o sinal de como aquelas conversas dentro d’água me fizeram sair sempre maior do que entrei: mais informado, mais bem-humorado, mais confiante no que a vida tem de bom. Se alguém me perguntar quem foi Seu Araújo para mim, respondo sem hesitar: o companheiro do banho de mar e um mestre sem cátedra, desses que a gente tem a sorte de encontrar quando menos espera.