Memórias e Talentos

Coisas que Ficam – Pedro Araújo

25 de Abril, 2025
Recife, Zona Norte. 18h. 

Após o trabalho, estou louco para chegar em casa. Um trânsito infernal me aguarda. Meu Deus, eu moro do outro lado da cidade. Já estou cansado por antecedência. Decido esperar o trânsito diminuir um pouco em algum lugar. Uma padaria, talvez. Tomar um café. Mas onde? Nessas horas, a memória trai a gente. Tudo que a gente quer é lembrar, lembrar, lembrar… Mas o lugar não me aparece. Vou seguindo caminho, entrando em ruas. Quando me dou conta, estou pertinho da casa de meu avô. A lembrança me aperta a garganta, igual esses carros me imprensando. Passando na minha frente, buzinando em meus ouvidos. E como os veículos, as memórias começam a me atravessar. Vou apenas seguindo, sem direção.

Quem vem pela Avenida Rosa e Silva, sentido Casa Amarela, passa por várias ruas importantes. Uma delas se chama Padre Roma. Entrando nessa rua à esquerda, depois à esquerda novamente, se chega a uma ruazinha sem saída. Pouco conhecida de nome, mas muito importante para mim. E é aqui que estou agora, sem nem me dar conta, dentro do carro parado e refletindo sobre tudo.

Vejo o pequeno prédio de 6 andares. O porteiro já acostumado com minha presença, me diria até para entrar. Mas não entro. Apenas lembro as vezes que cheguei aqui e entrei no elevador, contando cada segundo pra chegar naquele andar e tocar na campainha daquela porta branca. Quantas vezes toquei essa mesma campainha, aguardando com ansiedade que a porta se abrisse, e ele estivesse ali, em pé, me esperando? 

Ele normalmente estaria com uma camisa branca de botão, uma bermuda cinza, e chinelos. Às vezes, com um chapéu de pescador protegendo a careca. Outras, apenas com os cabelos ralos e brancos, e arrepiados. Eu sabia que, ao passar daquela porta, apesar dos mesmos trajes, um mundo novo me aguardava. Um mundo repleto de histórias, curiosidades, sabedoria, palavras novas para o meu vocabulário.

Minha vida foi marcada pela presença de meu avô. Gostava de sempre fazer milhões de perguntas, pois sabia que voinho iria responder. Sem sombra de dúvidas. Apesar da idade avançada, era um leitor voraz, estudioso, um excelente orador. 

Me recordo de quando era novo, andando perto da casa de voinho, reparei pela primeira vez no nome da rua: Padre Roma.

– Voinho, quem era Padre Roma?

Após uns 15 segundos, meu avô respondeu:

– Pedro, Padre Roma foi uma das figuras mais ilustres que nasceram em Recife. Formou-se em Teologia para ser um líder religioso. Para isso, foi para Roma estudar a doutrina, por isso ficou conhecido pelo vulgo Roma. Além de pregar a palavra, era bastante conhecido por lutar contra injustiças e desigualdades. Participou da Revolução Pernambucana de 1817, sendo uma das principais lideranças da Revolução. Quando estava a caminho da Bahia para recrutar novos aliados e instaurar uma República, foi preso e torturado para entregar os outros rebeldes do movimento. Não entregou ninguém, e por isso foi condenado à morte. Coincidentemente, seu filho estava na mesma prisão e assistiu a execução do pai…

– Sério, voinho? –interrompi – Caramba, e por que o filho dele estava preso? 

– O filho dele se chamava Abreu e Lima, e também estava preso por ser um militar…

Bem, assim eram as conversas com voinho. Começavam bem do nada, e seguiam para caminhos bem impressionantes. Como a história do pai de Abreu e Lima. Coincidência ou não, depois disso, eu passei a sempre me perguntar o nome das ruas e pesquisar sobre o assunto.

Outra vez, ele viu um livro em cima da mesa na casa de praia de meus pais, e disse: 

– Quem está lendo esse livro? 

– Eu – respondi.

E ele me contou que aquele livro havia sido escrito por um homem que estava passando por dificuldades financeiras e decidiu se alistar no exército. Em uma das batalhas, foi capturado pelos inimigos. Passou 5 anos preso, e, na prisão, começou o rascunho de um livro que seria um clássico da literatura mundial e foi, por muito tempo, a segunda obra mais lida do mundo, depois da Bíblia. O seu nome era Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha…

Por acaso, passei a ler a biografia dos autores de todos os livros que lia.

Certa vez, vi meu avô sentado na frente do computador escrevendo sem parar. Depois de um tempo, descobri que voinho estava inaugurando um blog, no auge dos seus quase 80 anos. No blog, compartilhava sentimentos, ideias, memórias de criança. Uma delas, sobre uma burra chamada Maroca, que fugiu. Dois anos depois, em uma cidade vizinha, enquanto estava hospedado na casa de vizinhos, e as crianças brincavam no alpendre, meu avô gritou:

– Lá vem no alto daquele cume a burra Maroca!

Meio incrédulos, os adultos foram atrás e descobriram que se tratavam mesmo de Maroca, a fugitiva.

Vai saber, mas depois disso, passei eu também a escrever minhas próprias memórias e recordações, sentimentos e ideias, sem nunca mostrar a ninguém. 

Mas junto ao seu lado culto e sério, às vezes ele me pegava de surpresa com comentários irônicos, que quando era mais novo, eu levava ao pé da letra. Um dia, fomos almoçar na padaria perto da casa dele. No local, ele fez o prato dele no self-service, pediu um suco de laranja e sentou-se à mesa. Quando o suco chegou, ele deu um gole e disse:

– Pedro, eu tenho pra mim que esse é o melhor suco de laranja do mundo!

Eu levei tão a sério, que realmente achei que era o melhor suco produzido no Planeta Terra. Nunca soube dizer se ele estava sendo irônico ou não, nunca perguntei.

Recife. 21h. O trânsito passou. Sigo para casa e percebo que nunca mais havia parado pra lembrar de verdade do meu avô. O tempo vai colocando no depósito da saudade, nossas memórias e momentos únicos. Coloca todas em uma caixa que vai juntando poeira, com outra caixa por cima, e mais outra. E a gente nem nota.

Anos e anos depois, já morando em outra cidade, estava conversando com um amigo e disse:

– Tu que és daqui, me diz onde compro película de vidro pro meu celular. A minha quebrou.

– Oxe, eu vou contigo! 

Caruaru. 18h. Procuramos várias lojas. Todas fechadas. Avistamos uma no fim da rua, com a luz ainda acesa, mas com cara de quem ia fechar. Entrei já pedindo:

– Moço, fecha não, por favor. Tem película de vidro pra esse celular? Ele é novo e eu sou muito desastrado. Tenho medo de quebrar.

– Tenho, sim, meu filho – respondeu rindo do meu desespero.

Comprei. Mas o que me impressionou foi a rapidez com que ele aplicou a película. Já vi outras pessoas aplicando. É um puxa daqui, mede de lá, vê se tá enquadrado, limpa tela, passa produto de limpeza pra depois colocar a película. Esse cidadão, não. Passou um paninho e já de cara colocou da forma certa, sem muito cacoete. Te juro, foram 10 segundos.

Paguei o serviço e parti. E comentei com meu amigo.

– Eu tenho pra mim que esse é o melhor aplicador de películas de celular do mundo!

Meu amigo riu de se acabar com meu comentário. 

Há coisas que ficam.