Memórias e Talentos

O Sábio Teimoso – Marcelo Leitão

Janeiro, 2025

É difícil escolher uma só história com Seu Araújo, porque foram várias. Ele era uma pessoa ímpar, principalmente por sua simplicidade. Era um homem muito simples, mas com uma bagagem de conhecimento impressionante. Sinceramente, até hoje não conheci ninguém com tanto conhecimento aliado a tanta humildade.

A história que mais me marcou aconteceu por volta de 1998 ou 1999. Na época, ele tinha um Uno que decidiu dar de presente para sua filha Laura. Ele chegou até mim e disse: “Olha, esse carro eu vou dar para Laura. Troque tudo o que for necessário”. Eu argumentei que não precisava, que o carro estava todo revisado, pois ele rodava pouco e com muito cuidado. Mas ele insistiu, com aquela sua preocupação característica: “Mas é um presente para Laura e esse carro não pode quebrar de jeito nenhum. Laura não pode ficar no meio da rua”.

Diante da sua firmeza, concordei. Para garantir, revisei tudo de novo, mesmo o que já estava feito. Organizei as notas de serviços anteriores, que na época ainda eram datilografadas. Quando entreguei o carro, ele me deu um cheque e pediu que eu guardasse o canhoto com os documentos. Na mesma hora, dei ordem para que aquele cheque nunca fosse descontado.

Passaram-se alguns anos, e um dia ele voltou e me disse: “Marcelo, acho que você esqueceu de lançar aquele cheque que eu passei pelo serviço do carro da Laura”. Ele era muito correto com suas finanças e insistia: “Eu faço um balanço de tudo todo ano, e esse cheque não está registrado. Vocês estão me enganando!”. Para resolver a situação, encontramos o cheque, que havia sido registrado e depois rasgado, e mostrei a ele, explicando que não havia necessidade de pagar por algo que não precisou ser feito. Ele ficou um pouco chateado com a teimosia da gente, mas entendeu.

Essa história, que hoje é engraçada, mostra bem como ele era. Mas Seu Araújo era mais que isso. Era uma verdadeira enciclopédia viva, adorava contar histórias e passava horas conversando, principalmente com Jonas e Benício, nosso alinhador. Ao final das visitas, sempre trazia um agrado, como semente de jerimum salgado, e fazia questão de dizer que não era um jerimum qualquer, era “o melhor jerimum”.

Ele tinha uma alegria de viver incrível, especialmente em relação ao trabalho. Não queria parar de jeito nenhum. Mesmo quando tentaram aposentá-lo, ele não conseguiu, pois amava o que fazia.

Para mim, ele foi único. Simples, dedicado e de uma sabedoria imensa. As histórias que vivemos foram verdadeiramente incríveis.