Memórias e Talentos

Silêncio e Ações Falam Mais que Palavras – Marcelo Furtado

Ao revisitar minhas memórias, percebo que não consigo identificar exatamente quando meu relacionamento com o tio Narcides se estabeleceu de maneira significativa. No entanto, ao refletir, noto que essa conexão foi se fortalecendo ao longo dos anos, especialmente após minha adolescência. Até o período pré-adolescente, morei 6 anos fora de Recife e apenas a partir dos 13 anos, quando retornei a Recife, o relacionamento com o tio Narcides começou a se intensificar.

A separação dos meus pais, por volta dos meus 14 ou 15 anos, foi um marco importante. A partir desse momento, ele passou a ter uma presença mais ativa na minha vida e na de minha mãe. Sempre atento, ele não assumiu um papel paternal tradicional, mas foi um pilar de suporte, agindo de forma perspicaz e cuidadosa.

Um Mentor Silencioso

O que mais me impressionava no tio Narcides era a forma discreta com que demonstrava interesse e preocupação. Ele não fazia perguntas diretas sobre minha vida, estudos ou futuro, diferentemente de outros familiares. Em vez disso, observava e tirava suas próprias conclusões. Essa abordagem fez com que eu o visse como alguém confiável, alguém que entendia o momento complicado que eu vivia sem me pressionar. Na ocasião quase abandonei a escola pela ausência quase total das aulas. Situação muito complicada.

Uma das coisas que nos aproximou foi o inglês. Desde jovem, ele cultivava o hábito de estudar a língua, algo que começou na época em que trabalhou na Marinha Americana. Eu, como filho mais velho, tive a oportunidade de estudar inglês um pouco mais do que meus irmãos, e isso criou uma conexão silenciosa entre nós. Ele nunca precisou falar diretamente sobre o assunto, mas compartilhava materiais, como a revista National Geographic, que recebia mensalmente de um amigo americano. Essa era uma das formas indiretas de nos aproximarmos.

Além disso, ele sempre esteve um passo à frente do seu tempo. Um exemplo disso foi quando, nos anos 60, ele já possuía o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, pouco tempo depois do lançamento. Esse disco, que até hoje figura entre os mais importantes da história da música, foi um dos primeiros que tive a oportunidade de ouvir repetidamente. Ele valorizava o novo, a vanguarda, e esse traço se refletia em muitas áreas da sua vida.

As Histórias e os Encontros Familiares

As reuniões familiares eram momentos em que sua personalidade brilhava. Ele gostava de contar histórias do interior, algumas tão inusitadas que pareciam impossíveis. Entre as mais memoráveis, estavam a da carta sem endereço que chegou ao destino certo em São Paulo, e a dos óculos que caiu do rosto de alguém e se encaixou perfeitamente no rosto de outra pessoa, se é que lembro corretamente do fato. Também havia a história sobre uma engrenagem com um número exato de dentes, que ele conseguia contar apenas observando-a diariamente.

Antes dos encontros familiares, (dizem que) ele costumava estudar um tema exótico ou fora do comum, para introduzi-lo durante as conversas. Isso fazia com que, em determinado momento, todos parassem para ouvi-lo, fascinados por sua abordagem única e seu conhecimento.

Os Hábitos Alimentares e a Saúde

Outro aspecto marcante da sua personalidade eram seus hábitos alimentares peculiares. Ele sempre estava à frente, experimentando novas combinações de alimentos e defendendo a importância de uma alimentação equilibrada. Tinha orgulho de ter o mesmo peso desde os tempos do serviço militar e adotava métodos curiosos para controlar o apetite, como comer uma colherzinha de açúcar antes de uma refeição farta para, segundo ele, ingerir menos comida depois.

Ele também era um entusiasta das sementes e das propriedades nutricionais dos alimentos. Um exemplo disso foi sua paixão pela semente de jerimum que ele torrava e salgava, sempre me ofertando algum, bem como também oferecendo aos amigos, conhecidos. Para ele, esse era um superalimento desperdiçado pela maioria das pessoas. Além disso, fazia questão de deixar pequenos pacotes em bares e estabelecimentos para incentivar seu consumo.

Momentos de Companhia e Pequenas Recompensas

Foi meu padrinho de casamento, juntamente com sua esposa, a saudosa e extraordinária tia Nilza. 

Sempre que eu visitava Recife, me surpreendia por estar no aeroporto. Falava meia dúzia de palavras e desaparecia, pois sabia que em algum momento iria visitá-lo. Ele me presenteava com algo simbólico, mas significativo. Várias vezes, me deu instrumentos rústicos, como pífanos de bambu e uma ocarina de barro, itens que ainda guardo com carinho.

Lembro também de uma ocasião em que saímos para um restaurante chamado Recanto Paraibano. Quando pedi um chope, ele fez o mesmo, mas chamou a bebida de “suco de cevada”, arrancando risadas. Nessas pequenas experiências, ele demonstrava sua leveza e bom humor.

Em várias situações, ele ajudava sem alarde. Um dia, voltamos para casa e encontramos uma televisão nova que ele havia comprado e mandado entregar. Em outra ocasião, apareceu uma bicicleta que depois soubemos que tinha sido um presente dele. Fazia essas coisas sem anunciar, sem esperar reconhecimento.

Já bem mais tarde minha filha nos seus 15 anos foi a sua casa e se aboletou na rede que tinha na sala de estar. No dia seguinte ele fez chegar até a minha filha Fernanda, o endereço onde teria algo para ela retirar. Chegando lá e se identificando, ela descobriu que tinha recebido uma rede similar àquela da sala de jantar. Nunca falou nada, e o interessante nesse caso é que a minha filha não tinha falado nada sobre a rede. Ele apenas percebeu que ela tinha gostado da rede e o resto é história. 

Um Homem Altruísta

A verdade é que tio Narcides era, de fato, um homem altruísta. Sua generosidade não era pontual, mas recorrente a ponto de, muitas vezes, esquecermos as inúmeras histórias que demonstravam sua bondade.

Uma das situações que mais me marcou aconteceu no meu primeiro ano de casado. Certa noite, já de madrugada, fui despertado pelo barulho do motor do meu carro. Levantei assustado e, ao abrir a janela, vi que o carro estava sendo levado. Não houve tempo para reagir.

Dias depois, moradores encontraram o veículo abandonado em um dos morros do Recife. Estava completamente depenado, reduzido a uma verdadeira terra arrasada. Mandei buscar e deixei estacionado em frente de casa. O carro não tinha condições de rodar, e eu não sabia quando poderia arcar com os custos da recuperação.

O tempo passou e, em meio às preocupações do dia a dia, fui adiando qualquer solução. Até que, certo dia, ao chegar em casa, percebi que o carro não estava mais lá. Fiquei chocado. “Roubaram o carro de novo?” pensei.

Mas, para minha surpresa, não era nada disso.

O tio Narcides, sem me avisar, havia conversado com minha mãe, pegado a chave do carro e levado até um mecânico de sua confiança. Algum tempo depois, ele simplesmente apareceu e disse:

— Seu carro está pronto. Pode ir buscar.

Fui até a oficina em Santo Amaro e fiquei impressionado: o carro estava completamente restaurado, pintado, funcionando perfeitamente. Parecia outro.

Não sei como iria ser, mas tentei pagar pelo serviço, mas ele recusou qualquer reembolso. Para ele, aquilo não era um favor, mas apenas algo que deveria ser feito. Esse era o seu jeito.

Essa história é apenas um dos inúmeros exemplos que ilustram quem era Narcides. Um homem de atitudes silenciosas, mas de impacto profundo. Ele não ajudava esperando reconhecimento — fazia porque acreditava que era o certo. 

Um Legado de Silêncio e Sabedoria

Ao longo dos anos, percebi que as pessoas ao redor do tio Narcides o viam como um homem do campo, um homem da terra. No entanto, isso era apenas uma faceta de sua pessoa. Ele foi muito mais do que isso. Ele possuía uma visão ampla do mundo, estudava diversos assuntos e absorvia conhecimento de forma incansável. Sua abordagem discreta e seu jeito observador deixaram uma marca profunda em mim.
Hoje, ao revisitar essas memórias, vejo o quanto ele influenciou minha maneira de enxergar o mundo. Sua presença foi um misto de mentor, amigo e observador silencioso, sempre presente, mas nunca invasivo. E é esse legado que guardo com mais carinho.