Memórias e Talentos

O Sábio da Bicicleta – Eduardo “Duda” Furtado

Fevereiro, 2025

Eu digo que Tio Narcides inspirou a criação do Google, muito antes de ele existir. Ele possuía uma cultura geral gigante, e quando a gente queria saber de alguma coisa e ele estava por perto, a pergunta era para ele. A resposta vinha sempre com uma profundidade que nos impressionava. Eu, brincando, ficava na dúvida se ele realmente sabia de tudo ou se ele sabia que a gente não sabia, e por isso podia dizer qualquer coisa, mas o fato é que seu conhecimento era impressionante. Lembro-me de um passeio a Itamaracá, quando ele nos levou ao Forte Orange. Ali, começou a contar toda a história da ocupação holandesa, contextualizando as guerras, e, enquanto caminhávamos, um rapaz se ofereceu para subir num coqueiro e pegar um coco por “dez alguma coisa”. Tio Narcides olhou para ele, riu e disse: “Por que eu vou te pagar dez, se eu posso ir lá e subir de graça?”. O menino ficou assustado, nós também, e depois todos rimos juntos. Era o jeito dele.

Seu conhecimento não se limitava à história; ele dominava a língua inglesa como poucos. Uma vez, no científico, eu precisava traduzir um texto e me deparei com uma palavra que não conseguia encontrar em lugar nenhum. Coincidentemente, ele apareceu lá em casa de bicicleta, como gostava de fazer. Ao ver meu dilema, ele olhou o texto e sentenciou: “Essa palavra não existe”. Eu insisti, mas ele repetiu. Quando ameacei pegar o dicionário, ele disse, com toda a confiança: “Nem vá. Se eu não sei, não vai estar no dicionário também”. E ele estava certo. A palavra estava digitada errada no texto original.

Mas é na sua generosidade que residem minhas memórias mais marcantes. Quando fiz 15 anos, mamãe não pôde me dar um presente. Ele soube e apareceu com uma bicicleta para mim. Alguns meses depois, ele voltou lá em casa, viu que o pneu estava meio murcho e, sem dizer nada, levou a bicicleta a um posto para encher e… a levou embora de volta! Quando liguei, bravo, ele explicou: “Levei de volta porque você não estava sabendo cuidar do presente que eu te dei”. Fiquei muito irritado na época, mas esse era o jeito dele de ensinar.

Essa generosidade era silenciosa e atenta. Lembro de mamãe comentar com ele sobre uma amiga que precisava tomar comprimidos de alho, mas não suportava o cheiro terrível. Ele ouviu a história em silêncio. Um tempo depois, apareceu com uma caixa de comprimidos de alho importados, sem cheiro nem sabor, algo raríssimo na época. Ninguém pediu nada; ele simplesmente ouviu, percebeu um problema e, do jeito dele, resolveu. Aconteceu o mesmo quando eu estava para viajar para um curso no Rio, com o dinheiro bem apertado. Ele soube, foi até minha casa e me deixou um dinheiro, dizendo que era para que eu pudesse fazer as três refeições e ter um melhor aproveitamento. Ele simplesmente soube e “chegou junto”.

É difícil traduzir em palavras a emoção de cada um desses momentos: a alegria imensa ao ganhar a bicicleta, a raiva quando ele a levou de volta, ou o alívio de poder fazer meu curso com mais tranquilidade. O que fica é a marca que ele deixou, uma marca de conhecimento, sabedoria, bom humor, e, acima de tudo, uma generosidade que não precisava de palavras para se manifestar. Ele era um grande contador de casos, mas suas maiores lições estavam nos seus gestos.