Memórias e Talentos

O Que Levo de Voinho – Artur Dutra Araújo

Janeiro, 2025

Quando penso no voinho, o que mais me marca é a correção, o fazer o certo pelo certo, sem esperar reconhecimento. Cresci ouvindo em casa – muito por influência dele – que regra se cumpre porque é a regra, não para ganhar ponto com ninguém. Na faculdade, por exemplo, um professor quis arredondar minha nota para cima e eu pedi para tirar o ponto extra. Isso por consciência, essa sensação de responsabilidade que herdei: se você quer fazer alguma coisa, faça do jeito certo, mesmo que ninguém aplauda.

Voinho tinha essa firmeza sem precisar levantar a voz. Antes de falar, ele se posicionava: mãos para trás, um pequeno balanço de corpo, e daí vinha a explicação precisa, organizada, cheia de contexto. Era professoral no melhor sentido. Ele era um “Google ambulante”, mas com humor seco. Em vez de proibir, convencia pelo argumento. Dava os porquês. Isso me definiu: obedece a regra porque é melhor para todos, inclusive para você.

Uma história que meu pai me contou e eu abracei como se tivesse visto é a de que voinho parou para ajudar um conhecido com o carro quebrado. Não era só dar carona. Foi lá, conversou, empurrou o carro, resolveu o que dava. Sem anúncio, sem esperar obrigado, sem “tirar satisfação” depois. A satisfação estava no próprio ato certo, feito do jeito certo. Esse desinteresse por crédito, essa ética, diz muito sobre ele.

Vejo traços dele espelhados em mim. Fui a criança que não tomava refrigerante. Era água e pronto. Simplicidade, funcionalidade, sem frescura. Até em escolhas de mobilidade eu me reconheço nessa herança. Teve uma noite de formatura em que os amigos queriam pegar táxi na saída. Eu bati o pé: 

– Vamos voltar de metrô. 

Era tarde, parecia maluquice, mas para mim fazia sentido. Mais cidade, mais gente, mais mundo real. É o tipo de atitude que me lembra a lógica de voinho, de preferir o transporte coletivo, caminhar, evitar a comodidade automática.

Tenho uma lembrança de ir à praça do Parnamirim com voinho para caminhar, observar, entender o entorno e intervir no que dá, sempre com respeito. Voinho tinha essa coisa de puxar todo mundo para a órbita dele: 

– Vamos a pé!  Desce um ponto antes. Experimenta outro caminho. 

Houve também um episódio clássico que rendeu história. Disseram a ele que eu amava fígado acebolado. Na verdade, era bife acebolado o que eu gostava de verdade. Só chegou à mesa um travessão de fígado acebolado gigantesco só para mim. Eu não gostava de fígado, mas comi em silêncio, mais por respeito do que por gosto. No fundo, era a pedagogia dele sem palavras. O cuidado de preparar algo pensando no outro.

Com o tempo, fui percebendo que a influência do voinho na família é menos “frase feita” e mais método de viver. Ética que não negocia, curiosidade que vira explicação, corpo em movimento, cidade como espaço de convivência, e uma economia que não é avareza, mas respeito ao que existe, ao trabalho que aquilo custou. Quando leio certas histórias, como a do advogado que faz o certo mesmo contra a maré, num romance sobre racismo que li na faculdade, eu me pego identificando o voinho naquele personagem: sério, calado, firme no que é justo, mesmo que isso custe simpatia.

Se eu tivesse de resumir o que eu, Artur, levo dele: responsabilidade, calma de explicar antes de mandar, o prazer de fazer bem feito ainda que ninguém veja, a escolha consciente pelo caminho simples. Caminhar, metrô, menos carro, menos ruído. É aquela sensação de que, se você não merece um ponto, peça para tirar. Se alguém precisa de ajuda, empurre o carro. Se há um jeito mais honesto de voltar para casa, tome o metrô. E siga — sem alarde, do jeito certo.