Memórias e Talentos

A Referência Que Ficou – Angela Claudia

Junho.2025

Tio Narcides sempre foi o contador de histórias da família, fossem histórias pessoais ou aleatórias. Os almoços na casa das tias (Nilda, Nilza e Zeta) eram o nosso momento, enquanto família, de nos encontrarmos e de ouvirmos suas histórias. Outras vezes o jantar era na casa dele. Às vezes, nesses encontros ficava latente algumas fases vividas por ele: a da pimenta biquinho, a da semente de jerimum, a do sunomono… e, invariavelmente, as descobertas influenciavam os demais e, de repente, estávamos comprando as sementes de jerimum, comendo semanalmente as pimentas biquinho ou pegando a receita do sunomono. Até para cuidar das plantas em casa tinha a influência direta dele: fumo líquido para prevenir pragas.

Tio Narcides sabia de tudo um monte. Tinha curiosidade sobre as novidades… lembro de um almoço em que Marcelo estava presente e tio Narcides perguntava a ele como é que as ondas de voz (similares ao do rádio) circulavam pelos cabos de conexão de dados da internet. Numa das últimas vezes em que o vimos – já no hospital – após nos receber, ele comentava sobre o valor do câmbio do dólar daquele dia, que ele viu na tv. Era autodidata, como diz meu pai.

Meu pai sempre dizia que o dom da contação de história de tio Narcides foi herdado por Maurício, que as conta tão bem quanto. E que Jorge herdou a curiosidade em aprender um “pouco” sobre tudo.

Tio Narcides tinha uma presença quase como patriarca da família, o tio mais velho, o filho mais velho. Os irmãos se respeitavam muito e tinham uma convivência pacífica e alegre nos encontros que tínhamos. Era muito bonito de se contemplar. Mesmo nas suas diferenças havia muito amor e respeito envolvido entre eles. Sempre tive muito respeito pela educação que os meus avós deram aos seus filhos, pois se refletia – mesmo na ausência deles (dos meus avós) há tantas décadas – em cada encontro, em cada interação. Tive apenas 2 tios paternos (os outros irmãos já tinham falecido), tio Nilton morava em Salvador e não tínhamos tanto contato, mas tio Narcides era a nossa referência no papel de tio. Sei que ele teve um papel muito forte na formação do meu pai (o caçula) e, de certa forma, essa referência foi passada para nós.