Memórias e Talentos

Pânico – Pedro Araujo

Ele nasceu numa cidade pequena. Morou ali a vida inteira e raras vezes saiu de lá. Conhecia todas as pessoas, até porque não eram muitas, e nunca nutriu nenhum desejo de se mudar. Residia ainda com seus pais, que agora já eram idosos e trabalhava no único mercadinho que existia na cidade. Passava o dia atendendo clientes e no final do expediente fechava o caixa.

Ia e voltava pra casa andando, sempre pelo mesmo caminho. Por ser um município minúsculo, não usava transporte. No máximo uma bicicleta cheia de ferrugens que guardava na garagem de sua casa.

Seu nome era José Carlos, e foi no auge dos seus 35 anos que começou a ter mais contato com a Internet. Não gostava, na verdade. Passava a maior parte do seu tempo livre na rua conversando com amigos e parentes, mas agora eles estavam o tempo todo nos seus computadores e celulares, por isso decidiu se entregar ao mundo digital.

Certo dia, ficou assustado com uma notícia que apareceu ao abrir um site de notícias:

CRISE DE PÂNICO: PODE ACONTECER COM VOCÊ

O jornal afirmava que esse era o mal do século e que todas as pessoas eram passíveis de ter uma crise de pânico. Ninguém estava a salvo. Crianças, adultos e idosos. Independente de classe social ou gênero. Todos entravam nas estatísticas. A matéria citava todos os sintomas: taquicardia, aperto no peito, falta de ar, medo, claustrofobia, etc. Eram tantos sintomas, que José Carlos pensou que isso poderia muito bem acontecer com ele a qualquer hora. Começou a ficar sempre atento a qualquer indício de que estivesse tendo uma crise. Tocava no peito para sentir se estava com os batimentos cardíacos normais. Em lugares fechados, tentava entender se estava com claustrofobia. Conferia sua respiração de tempos em tempos para ver se respirava normalmente. Os dias se passaram e não teve nada. Relaxou.

Um certo dia, enquanto conferia sua caixa de entrada, José Carlos recebeu um e-mail que dizia: 

PARABÉNS, VOCÊ FOI SORTEADO E GANHOU MUITO DINHEIRO

Por não usar a internet regularmente, José não pensou que se tratava de um possível vírus. Ele nem sequer participava de sorteios, pois nunca ganhava mesmo, mas aquela mensagem despertou seu interesse. O e-mail prometia um prêmio em dinheiro, e que para retirá-lo era necessário comparecer a um certo endereço em outro estado. Mas que tivesse pressa! Ele só tinha alguns dias para garantir sua premiação.

Impressionado com sua sorte, já saiu pesquisando os meios mais rápidos de chegar a tal cidade. Como havia poucos dias para acabar o prazo, decidiu ir de avião.

Falou a todos os seus vizinhos que estava de partida e que ficaria rico.

Eis que seu pai falou:

– Zé, Zé…Isso tá muito estranho. Onde já se viu dinheiro fácil assim?

– Esse é seu problema, pai! Tudo o senhor desconfia.

– E vai de avião? Você nunca nem entrou em um. 

– Vou, e o que é que tem?

– Leve pelo menos um remédio para dormir. A vizinha falou que sempre que viaja, ela toma um. 

– Eita, boa ideia!

– Leve também um comprimido para dar energia, assim você vai ficar mais esperto e não se perde na cidade grande.

– Boa, pai. Vou à farmácia agora.

Comprou os dois remédios, um de cada, e guardou em sua mochila. Pegou carona com um caminhoneiro amigo seu e chegou ao aeroporto.

Chegando lá foi fazer o check in e ficou impaciente com a demora de tudo. Bilhetes, pesar malas, detector de metais, digitais, bilhetes novamente. Antes de entrar na aeronave, passou por várias pessoas e já detestava tamanha burocracia. Começou a ficar nervoso pensando se chegaria um dia.

Com tantos procedimentos, se sentiu cansado e impaciente. Seu desconforto aumentou quando entrou no avião e as portas se fecharam. O piloto mandou apertarem os cintos e nessa hora percebeu que não tinha como sair dali se quisesse.

Teve uma sensação ruim, e se lembrou da notícia sobre crise de pânico que leu no jornal. Sabia que claustrofobia era um sintoma e começou a sentir o coração acelerar.

– Se eu tiver uma crise de pânico aqui dentro, estou lascado – pensou.

Procurou o remédio para dar sono, mas na ânsia de tomar logo, pegou o comprimido errado. 

Pensou que em 5 minutos estaria dormindo, mas o remédio era de energia e começou a ficar agitado. Teve taquicardia, ficou ofegante. Sua adrenalina disparou. Quis levantar da poltrona enquanto o avião estava decolando e foi barrado por uma comissária de bordo.

– Senhor, por favor, de volta ao seu lugar.

– Não posso, moça. Não posso.

– Ora essa, e por que não?

– Estou tendo uma crise de pânico! 

– Pânico? – perguntou a aeromoça.

Devido ao barulho do motor do avião, o seu vizinho de poltrona ouviu o diálogo pela metade.

– PANE? VOCÊ DISSE PANE? AI, SENHOR! A GENTE VAI CAIR.

– Não, senhor! – tentou acalmar a aeromoça mas já era tarde.

Outras pessoas ouviram a palavra “pane” e a gritaria foi geral. 

Uma senhorinha de 80 anos começou a rezar e falar alto que se arrependia por não ter feito tudo que tinha vontade na vida. Mais à frente, uma mulher na altura dos 50 anos começou a pedir desculpas a seu marido por traí-lo com o vizinho. Naquela altura, o marido chorava e dizia que a perdoava, e que era ao lado dela que queria morrer mesmo assim. Alguns passageiros faziam promessas. Um deles disse que se sobrevivesse, deixaria de roubar dinheiro do irmão. A outra gritou que doaria todo seu dinheiro para os mais humildes. Choros, gritos e promessas. Gente rezando, crianças esperneando e homens se empurrando.

José Carlos corria para cima e para baixo pelo corredor do avião e não sabia o que fazer. Sua reação foi tomar o remédio de energia que tinha na bolsa, pois aquilo era uma situação de vida ou morte. O avião ia cair em alguma floresta e queria estar atento a tudo para sobreviver. 

Dessa vez tomou o comprimido de dormir, e como uma cortina que se fecha lentamente,  foi vendo a luz sumir aos poucos até adormecer.

Só acordou horas depois, com dois comissários de bordo ao seu lado. 

– Senhor, você está bem?

– Valha-me, Deus! Eu morri? – perguntou ainda recuperando os sentidos.

– Não! Aterrisamos e estamos pedindo a todos os passageiros para descerem

– E o que houve?

– Tivemos uma situação de pânico generalizada e o piloto aterrissou.

José Carlos ao descer da aeronave não acreditou na quantidade de repórteres e fotógrafos no local. Polícia, bombeiros e enfermeiros tentavam acalmar os passageiros que ainda estavam tremendo de medo.

Ele demorou a entender a situação pois ainda estava grogue do remédio, mas ouviu um funcionário da companhia aérea falar para todos:

– Senhoras e senhores passageiros, quem esteve no voo que apresentou problemas internos, saibam que temos outro saindo daqui a pouco e vocês poderão chegar aos seus destinos normalmente. 

José Carlos não pensou duas vezes. Sua primeira experiência voando foi tão traumática que ele pegou o primeiro ônibus de volta à sua cidade. Até os dias de hoje, José não sabe dizer se realmente havia um prêmio a receber mas decidiu deixar pra lá. Também resolveu nunca mais ficar com os seus pés tão longe do chão. No mais, alguns amigos afirmam que José frequentemente é visto com a mão no coração, que confere a respiração vez outra e não fica muito tempo em lugares fechados.

Pedro Araujo