Memórias e Talentos

A cabana de Mabica – Pedro Araujo

Mabica possuía uma condição que lhe seguiria a vida inteira pela frente. 

Gostava de viajar. Dizem que sua mãe e pai foram os culpados. Incutiam nela a vontade de conhecer locais desconhecidos, se aventurar sozinha por aí e não ter medo do novo.

Explorou desde tenra idade os mais inóspitos ambientes que podia.

Um dia, lhe disseram que havia uma cabana abandonada em uma floresta distante. Não havia muitas coordenadas nem um mapa específico para chegar. Apenas relatos. 

Suas fontes não sabiam também informar se essa cabana realmente existia, pois não conheciam ninguém que realmente houvesse  desbravado aquelas matas. Diziam as más línguas que lá, no meio da floresta, habitavam os mais variados tipos de animais exóticos, plantas venenosas e até espíritos malignos. A caminhada era longa, cansativa e perigosa. Mas se era tão difícil chegar, qual a vantagem de ir até uma danada de uma cabana?

 – O céu, Mabica. Dizem que ver as estrelas na varanda dessa casa muda a sua vida pra sempre. 

Era o que diziam as lendas repassadas pelos nativos da cidade.

Já era hora de botar as coisas na mala e partir. Não queria perder mais um minuto. Decidiu sair à noite para evitar o sol. Botou todos os utensílios para se proteger na floresta selvagem: facas, bússola, lanterna. Água e comidas de reserva, mudas de roupa. 

Preparou-se para 3 dias de caminhada.

Na verdade, perdeu a noção de quantos dias realmente levou. 

Viu ursos, serpentes e aranhas. Até jurou ver um pinguim. Será que estava sã do juízo? Cortou-se nos espinhos de uma planta que nunca viu, e acha que delirou. Não sabe ao certo.

Mas com certeza, viu espíritos. Homens gigantes e feios. Velhas corcundas e que lhe estendiam a mão na neblina. Viu ao longe crianças rindo e se escondendo dela, como se brincassem. Logo depois, desapareciam. Isso não a impediu de continuar. Com pouca água na mala e com a comida já no fim, avistou ao longe o seu destino. Parecia iluminado por um azul celestial, quase divino.

E entendeu o que tanto falavam. 

O ar era puro e se sentia segura, por algum motivo que não entendia. A vista da cidade era incrível. E o céu…Isso valeu todo o esforço. Devido ao isolamento de onde estava, enxergou estrelas que nem sabia que existiam.  Rodeada de uma energia que parecia lhe proteger, teve a melhor noite de sua vida. Acompanhada do mundo e de si mesma.

Naquela mesma noite, os pais de Mabica também viam o céu pela janela de casa. Imaginavam o que deveria estar se passando na cabeça da filha naquele instante. 

Faziam tudo por ela, desde criança. E de uma coisa se orgulhavam: ensinaram a menina a desbravar o mundo. E ela dizia que queria sair sozinha, sem ninguém no seu pé. Mesmo com 5 anos de idade, ela insistia. Até que um dia fechou a cara e disse que não falaria com mais ninguém até ter a permissão de sair só. 

Os pais então bolaram um plano. Compraram no centro da cidade uma barraca de acampamento sem dizer nada a Mabica. Montaram no jardim de casa, um pouco escondida por entre as goiabeiras e laranjeiras que cultivavam. E deixaram dentro da barraca: água, doces e uma pequena lanterna. 

Disseram à pequena Mabica que ela poderia sair sozinha, mas que deveria ter cuidado. Também lhe aconselharam a sair de noite para evitar o sol.  Ficasse de olho aberto com bichos e plantas. 

E lhe dariam instruções para chegar a uma cabana protegida por deuses.

Mabica agradeceu a confiança. E com 5 anos de idade, saiu pela porta da frente e se despediu dos pais, a caminho de sua primeira viagem solo. Seus pais não desgrudaram da janela até o amanhecer. 

Abraçados e sorrindo, viram orgulhosos a coragem da filha que estava a 50 metros de distância, no jardim de casa, descobrindo as belezas da vida.

Pedro Araujo