“Você Não Vai Sozinho” – Graziani Fonseca
Janeiro.2025
Bom dia, Antônio Jorge!
Rapaz, vou compartilhar minha lembrança do seu pai, e você organiza como achar melhor.
Minha memória começa nos tempos em que estudávamos juntos no MDU, nos anos de 1978 e 1979. Em algumas disciplinas, os professores pediam trabalhos coletivos, e uma vez, não me lembro se foi o professor Paulo Cassundé, recebemos a tarefa de estudar um livro – acho que se chamava O Homem e a Cidade. Era um livro complicado, antipático até, porque era uma tradução do francês para o português de Portugal, o que tornava a leitura ainda mais difícil.
Ficou para nós dois a missão de fazer uma resenha e apresentá-la. Foi então que você sugeriu trabalharmos na sua casa, fora do horário de aula. Não lembro o nome do bairro, mas era depois da Jaqueira, passando pela FECIN. Fui algumas vezes lá; era um trabalho que estava nos dando muito trabalho mesmo. Lembro que durante esses encontros, interagíamos bastante com seu pai, Seu Narcides, e sua mãe, Dona Nilza. Ambos eram muito comunicativos e acolhedores.
Teve uma noite em que, já exaustos, você e eu acabamos cochilando no meio do trabalho. Você estava no quarto, na sua mesinha, e eu dormi em uma poltrona na sala. Quando menos esperava, acordei com sua mãe cobrindo-me com um lençol. Ela já havia feito o mesmo com você. Era quase meia-noite. Quando me levantei para ir embora, Seu Narcides apareceu e insistiu: “Você não vai sozinho.” Expliquei que precisava ir para casa, em Ouro Preto, Olinda, onde meus irmãos estariam preocupados, mas ele não aceitou que eu seguisse só.
Seu Narcides me acompanhou dirigindo atrás do meu carro até a porta da minha casa. Ele tinha essa preocupação genuína, mesmo comigo sendo apenas um amigo e colega do seu filho. Fiquei impressionado com o gesto de cuidado e amor.
Outra lembrança marcante de seu pai está relacionada às pimentas. Eu já era “pimentista” naquela época, e acho que cheguei a dar algumas pimentas a ele. Seu Narcides tinha um verdadeiro interesse pelo tema, me dava até “aulas” sobre pimentas, e cuidava de alguns pés em vasos na casa. Desde então, toda vez que vejo uma pimenta, lembro-me dele e, por extensão, de você e de Maurício. Embora meu contato com Maurício tenha sido breve, ele também está presente nessas memórias.
Esses gestos, tanto o cuidado em me levar para casa quanto as conversas sobre pimentas, me marcaram profundamente. Para mim, Seu Narcides continua vivo na memória e no coração por essas atitudes de generosidade e humanidade.