Memórias e Talentos

Visto por Suas Primas – Erci e Alair

Fevereiro, 2025

As primas Erci e Alair guardam memórias afetuosas de Narcides, cada uma revelando uma faceta de sua personalidade discreta e marcante. A imagem que ambas compartilham é a de um homem de chapéu claro, que observava com calma antes de agir com uma generosidade e sabedoria singulares.

Para Erci, a lembrança mais forte é a de sua presença constante e prática na vida de sua família. Ela recorda das visitas que ele fazia à sua casa na Rua Padre Venâncio, onde sua mãe, Teresa, trabalhava como costureira. Ele chegava à tarde, tirava o chapéu, sentava-se na varanda e puxava conversa. Numa dessas ocasiões, ao saber que não tinham um rádio, ele apareceu no dia seguinte com um aparelho de presente. “Mudou o humor da casa”, conta Erci, “a sala ganhou som e a gente passou a ouvir de tudo”, incluindo o tema de Luzes da Ribalta, de Chaplin.

Essa capacidade de ver uma necessidade e agir de forma eficiente se mostrou ainda mais fundamental em momentos difíceis. Erci narra o episódio da trágica morte de seu marido, Enaldo. Enquanto a família, aflita, debatia as despesas do traslado e do velório, Narcides chegou em silêncio, ouviu a situação e, quando falou, já havia resolvido tudo. Ele ligou para a Maguari, empresa onde trabalhava, que assumiu todos os custos, trazendo um pouco de paz à família em meio ao caos. “Era o jeito dele. Tomava a frente sem alarde”, relembra.

A generosidade de Narcides também se manifestou em momentos felizes. Como padrinho de casamento do filho de Erci, Carlos Eduardo, ele deu um valor em dinheiro alto o suficiente para cobrir mais de um mês das despesas do novo casal. “Não era ostentação”, explica ela, “era o entendimento prático de quem sabe o peso de um começo de vida”.

Já Alair via essa mesma essência de um lugar diferente. Sendo do ramo da família do Engenho Monte Alegre, sua convivência na infância foi menor, mas a imagem de Narcides se consolidou com o tempo, especialmente nos círculos da igreja. Ela se lembra de vê-lo após os cultos na Igreja da Madalena, sentado discretamente no canteiro com seu chapéu claro nas mãos, “observando mais do que falando”.

Para Alair, Narcides era o “conciliador nato” da família. Diante de qualquer desentendimento, a solução era sempre “chama Narcides”. Ele não só apaziguava com palavras, mas também ajudava financeiramente quando percebia a necessidade. Era um homem que ouvia primeiro para só então dar “o conselho certo, na hora certa”. Alair também recorda de sua “pedagogia do cotidiano”, sempre recomendando hábitos saudáveis e cuidado com a alimentação.

Mesmo em encontros breves, como na saída dos cultos, a impressão era duradoura. Alair conclui que cada conversa a fazia voltar para casa “com a sensação de que tinha falado com alguém extraordinário no sentido mais literal: fora do comum, bom de verdade”.