Memórias e Talentos

O Sabor que a Memória Guardou – Carina

Junho.2025

Eu tinha me esquecido dos seus pedidos, e minha irmã me lembrou hoje. Estava conversando com eles no aniversário do papai, que foi recentemente, e comentei que tenho poucas lembranças da época em que nasci, porque sou bem mais nova, nasci muito tempo depois de vocês. Por isso, as minhas lembranças são poucas. Lembro muito bem da rua da casa onde nasci, porque era uma rua interessante, fazia uma espécie de U. Lembro também da casa: era um prédio, tinha uma sala, e a gente sempre ficava nessa sala. Não sei se era Natal, se era aniversário de alguém… eu era criança, então só lembro um pouco dessas ocasiões.

As lembranças mais marcantes que tenho — e como você disse que eu podia enviar áudio, resolvi fazer isso antes que eu acabe esquecendo de novo, com essa correria — são de quando ele começou a mexer com sementes, depois que se aposentou. Acho que nunca cheguei a ver ele trabalhando, mas lembro dessa fase das sementes de limão. Ele explicava todo o processo e depois passou a vender nas ruas. Eu achava aquilo tão engraçado, esse espírito empreendedor, que o pai mesmo não tem muito — bem o oposto, na verdade. Ele sempre sentava pra contar muitas histórias, sempre com aquele mesmo tom de voz. Pelo menos, era assim que eu o via: sempre com o mesmo tom, nunca alterado na minha frente.

Um dia, ele sentou e, nessa época, eu já era adolescente, gostava muito de cozinha. Foi então que ele me explicou, pela primeira vez, como se fazia a receita de sunomono. Lembro disso muito bem. A gente nem fazia ideia de como preparar um sunomono naquela época — acho que ainda não era algo difundido, como hoje em dia, com as redes sociais. E ele explicou com toda paciência. 

Também falava sobre como fazia as sementes, sobre as propriedades dos alimentos. Isso me fascinava, porque ele sabia os benefícios reais dos alimentos e valorizava isso. 

E eu sempre achei muito interessante esse lado dele voltado para a saúde, para os alimentos. Aquela coisa de pegar e fazer o sunomono — isso ficou marcado. Era algo tão interessante, eu nunca tinha visto uma receita. Anotei, inclusive. Posso dizer que foi a primeira receita que anotei. Ele já tinha esse conhecimento todo.

Paião, como agrônomo, também tem um pouco disso. Acho que, apesar de diferentes, os dois irmãos têm essa semelhança, e talvez a gente tenha puxado isso da família de Paião.

A família de Paião tinha essa coisa dos “nascidos”, dessa busca por uma alimentação melhor, de tentar fazer coisas em casa, seguir receitas em vez de comprar tudo pronto. De introduzir coisas como sementes de limão — algo que normalmente não se come, mas que tem propriedades muito boas. Quando o Claudio me lembrou disso, fiquei pensando: “Meu Deus, a gente não come mais a semente de limão!” Talvez esse seja o grande legado dele. Na mesma hora pensei que precisava correr pra comprar, principalmente pro Tiago. Desculpa a emoção.

Lembro que ele falava muito dessas questões da comida, das propriedades das coisas. Sempre tinha uma história pra contar. Era uma pessoa com quem você podia sentar pra conversar, independentemente da geração. Ele sempre tinha muito papo, era assim. Conheci ele como seu Araújo. Ele vendia numa loja perto da casa do pai, na época, em Caçamentos. Sempre que a gente o encontrava, ele dizia: “Ah, hoje a senhora vai contar uma história, né?” Ele era esse tipo de pessoa: adorava conversar. Mesmo aposentado, nunca vi ele parado. Não sei como era por dentro, porque infelizmente não convivemos tanto assim, mas ele nunca foi aquele idoso calado, que lamenta a vida. Era o contrário — sempre tinha histórias, estava falando, explicando como fazer o sunomono, comentando as propriedades dos alimentos.

Era uma pessoa sempre ativa — essa era a palavra dele, “ativo”. Acho que o pai herdou um pouco disso. Não tanto, porque o pai é mais calado, mas tem sim um pouco dessa característica. E acho que nós, a geração que veio depois, também herdamos um pouco disso: essa vontade de descobrir os alimentos, de se alimentar bem. O pai mesmo me vê e diz: “Tem que tomar aloe vera, não sei o quê…” E eu realmente tenho muito disso.

Claro que nascemos numa geração dominada pelos ultraprocessados, então a gente conhece esse outro lado, mas eu tento evitar ao máximo. Estou sempre lembrando dessas coisas, tentando fazer receitas aqui em casa. Acho que puxamos muito disso porque, ao menos eu, na adolescência e juventude, acompanhei esses processos. Vi o tio e o pai falando de alimento, trazendo alimentos naturais, contando histórias. Isso me marcou. Espero ter contribuído um pouquinho, mas como você disse, a lembrança mais vívida é essa: ele falando, sempre falando, nunca murmurando ou calado.

Sempre foi uma pessoa cheia de histórias pra contar. E eu sempre achei muito interessante esse lado dele voltado para a saúde, para os alimentos. Aquela coisa de pegar e fazer o sunomono — isso ficou marcado. Era algo tão interessante, eu nunca tinha visto uma receita. Anotei, inclusive. Posso dizer que foi a primeira receita que anotei. Ele já tinha esse conhecimento todo.

E é isso mesmo. Hoje… bom dia!