Memórias e Talentos

O Irmão que me Pegou pela Mão – Neritonio Araújo

Fevereiro, 2025

Nasci em Conceição, nos engenhos da família, mas quase tudo desse começo eu sei de ouvir contar. Eu tinha três anos quando papai decidiu largar a vida confortável do interior para que os filhos estudassem no Recife. Viemos todos num caminhão: na boleia, o motorista, mamãe e eu, que sou o caçula. Os demais, com a mudança, em cima.

Papai já havia comprado uma casa de taipa na Rua Dona Elvira, nº 161, na Encruzilhada. Como éramos muitos, ele distribuiu a tropa. As mulheres ficaram na casa da frente. Nós, homens, ocupamos dois quartinhos num anexo nos fundos. Havia um banheiro interno e outro externo para dar conta do batalhão. O quintal reproduzia o engenho: galinhas, cachorro, canteiros e um pomar farto – caju, jambo, goiaba, pitomba, carambola, cana e bananeiras. Era uma vida simples, mas animada.

Meu irmão Narcides, o segundo filho e a quem chamávamos de “Naná”, era o segundo filho. Eu, o último. Quando nasci em 1943, “nana” já estava com 19 anos, portanto, não convivi com ele na sua infância nem na sua adolescência. Ele já morava no Recife antes de a família chegar de vez. Saiu sozinho e ainda jovem de Macaparana para estudar, servir ao Exército (ficou de sobreaviso no tempo da guerra) e morava numa pensão. Se a memória não falha, era nas imediações do Hotel Central, próximo à praça Maciel Pinheiro. Mais tarde, trabalhou na Panair do Brasil e foi funcionário de empresas como Carvalho S.A. e Maguari, sempre criando amizade com os donos, amizades que atravessaram décadas.

Perdi mamãe aos nove anos e papai anos depois. Nessa brecha, Narcides e Nilza viraram, para mim, um pai e uma mãe. A minha convivência com “Naná” durante a adolescência foi muito marcante. As minhas memórias de irmão caçula com ele são de muita presença. Ele me levava a pé, junto com Nilton, para ver os jogos do América x Náutico, o “clássico da técnica e da disciplina”, nos Aflitos ou no Arruda. A gente ficava encostado no fosso. Eu, menino, imitava o chute do jogador quando a bola vinha.

Aos domingos, Narcides me pegava, também com Nilton, para passeios ao Parque Dois Irmãos. Íamos de bonde, alugávamos o barquinho, ele remava de ilha em ilha, colhíamos goiabas, comíamos ali mesmo, e voltávamos quando o sol amansava. Depois que ele saiu da pensão e foi morar em Apipucos, eu seguia de bonde para a casa dele, que era perto do açude, e íamos pescar lá. Eram horas silenciosas, de companhia boa. Nós dois éramos calados. Falávamos do que importava: família, estudo, as coisas da casa.

Narcides também foi um jovem que gostava muito de política, com uma tendência para a esquerda, e mantinha amizade com o deputado estadual Paulo Cavalcanti. Quando Neide se casou com Romeu, “nana” se aproximou muito dele, pois tinham esse amigo em comum. Com a morte do nosso pai, “Naná” passou a assumir a responsabilidade pela administração do Engenho Conceição (Pirauá), juntamente com Romeu.

Quando eu já estava na faculdade, o engenho foi vendido. Com o valor da venda, nós, os irmãos que moravam na Rua Dona Elvira, decidimos construir uma casa nova no mesmo terreno, agora de alvenaria, pois a anterior era de taipa. Eu estava na agronomia e desenhei a planta, acertei com um mestre-de-obras da igreja e, com um engenheiro assinando os cálculos, tocamos a obra. Derrubamos a casa de taipa, cavamos alicerce e erguemos o sobrado que acolheu a família por mais um ciclo. Até nisso, Narcides estava por perto, incentivando.

Sua origem no campo nunca o abandonou. Ele sempre gostou de agricultura, e creio que sua influência me levou a escolher agronomia. Ele sempre cultivava no jardim de sua residência plantas ornamentais e medicinais — destaco a pimenta biquinho. Outra parte do seu amor pela natureza, ele conseguiu fazer história com a produção e venda de sementes de jerimum.

Narcides tinha essa inquietação boa. Não suportava ficar parado. Quando se aposentou, os filhos tiveram a ideia de contratar um motorista para levá-lo para cima e para baixo. Deu “errado” porque ele preferia ir a pé. Chovesse ou fizesse sol, ele recusava. Em festas de família, aparecia com um isopor grande, cheio de coisas geladas, e gostava de ver a mesa farta e gente de fora. Dizia: “Se não tiver visita, não presta”. No meio do cotidiano, ele inventava pedaladas longas. Chegou a ir de bicicleta até o Cabo na época em que Nilson morava lá.

Ele deixou marcas onde trabalhou e por onde passou. Fazia amizade com donos e empregados, assumia responsabilidades, resolvia de um tudo. Era objetivo. Fazia o que precisava ser feito. E também era generoso. Comigo, isso virou norte: estudar, trabalhar, servir.

Quando penso em Narcides, vejo um excelente filho, irmão e pai. Para mim, foi também um segundo pai. O irmão que me pegou pela mão para o estádio, para o parque, para a vida adulta. Se fui moldado por alguém além de mamãe e papai, foi por ele e por Nilza. E isso, graças a Deus, ficou.