Meu Avô por Consideração – Alexandre Araújo
Maio.2025
Tio Narcides era a única referência que eu tinha de avô. Sendo meu pai e minha mãe, ambos, os caçulas de muitos irmãos, eu não havia conhecido nem meu avô paterno nem meu avô materno. Por isso, Tio Narcides, muito presente na vida de minha família, era minha referência de avô. E como referência de avô, ele foi referência e influência em muitas situações de minha infância, adolescência e juventude.
Lembro-me de que, aos 11 anos, entrei para um Clube de Astronomia, e lá, soube que se você mandasse uma carta para a NASA, ela lhe enviaria belíssimas fotos dos planetas e do espaço, tiradas pelas sondas da missões Viking, Voyager 1 e Voyager 2. Acontece que eu temia pelo meu inglês elementar, e então, pedi a Tio Narcides, fluente em inglês, que escrevesse a carta para a NASA, apresentando-me e pedindo as fotos. Ele não escreveu a carta… mas fez com que eu mesmo a escrevesse, ensinando-me e explicando-me cada pronome, verbo e frase que ele ditava. Não foi somente uma carta, foi uma aula de inglês.
Numa outra ocasião, ele me explicou que eu deveria usar a forma “thy” ao invés de “your” quando me referisse a um atributo de Deus, por ser uma forma mais respeitosa.
Com Tio Narcides aprendi a gostar de pimentas, e de plantas em geral. E aos 12 anos, ele me deu de presente meu primeiro canivete suíço multifuncional. Ele me acompanhou nos acampamentos do CPOR, e nos outros 8 anos em que estive servindo no Exército. Ainda o tenho, junto com minha coleção de canivetes. E por falar em CPOR, na véspera de meu alistamento, estando ainda pensando em tentar ser dispensado por excesso de contingente, conversei com Tio Narcides que contou-me sobre os dias em que esteve no Exército, durante os anos da II Guerra Mundial. Apesar de não ter saído do Brasil, mas por ter estado de prontidão, aguardando para ir à Itália com a Força Expedicionária Brasileira, foi considerado herói de guerra. Essa conversa me fez mudar de opinião, e durante o alistamento, declarei-me candidato para ingressar no CPOR. Decisão da qual não me arrependo até hoje.
Essas são apenas algumas das lembranças felizes que tenho com Tio Narcides, o meu avô por consideração.