Memórias e Talentos

Meu Avô, do Jeito Dele – Mariana D’Oliveira

Janeiro, 2025

Uma das lembranças mais antigas e fortes que eu tenho do Vô Narcides é dele em pé, no quarto de estudos lá do apartamento deles na Tamarineira, ouvindo uma fita de causos. Numa das histórias, tinha uma cobra que era tão grande, mas tão grande, que a “menina do olho da cobra era do tamanho de um pneu de caminhão”. Ele já tinha decorado essa parte e contava junto com o narrador, com o dedo em riste, e ria muito. Eu, que era pequena, não entendia nada, mas adorava ver meu avô, que geralmente era um cara mais sério, dando aquelas risadas gostosas.

Ele era um homem culto e simples, com um jeitão do campo mesmo morando na cidade. Uma imagem típica dele era chegando em casa, com suas roupas quase sempre nos tons de branco, bege e cinza, usando uma boina ou chapéu e com uma bolsa de couro a tiracolo. Ele entrava pela porta da cozinha – a da sala só abria em dia de festa – e ia direto dar um oi pra minha avó. Eles sempre davam um “selinho”. Eu achava o máximo, porque o jeito dele de mostrar carinho não era muito de pegar. A gente, os netos, ele cumprimentava com uns tapinhas na cabeça, meio sem jeito. Por isso, ver meus avós se beijando na boca era surpreendente e muito fofo.

Outra mania dele era na hora de comer. Ele passava um tempo de olhos fechados, mastigando e balançando a cabeça que sim. Acho que era pra se concentrar no gosto da comida, curtir o momento. Ou talvez estivesse contando as mastigadas, porque ele sempre dizia que o certo era mastigar sessenta vezes antes de engolir. Essa cena dele comendo de olhos fechados é muito a cara dele.

Por trás daquele jeito sério, ele era muito sensível. Lembro de uma vez que ele começou a contar uma história do tempo do engenho, sobre uma burra chamada Maroca que tinha sumido e que, um belo dia, eles viram lá longe, voltando pra casa. Quando perguntei como eles sabiam que era ela, ele só respondeu que sabiam, que era óbvio. E aí, ele começou a chorar. A história parecia que ia ser engraçada, mas acho que bateu uma saudade enorme daquela época. Essa foi uma das duas únicas vezes que vi meu avô chorar.

A segunda vez foi na festa de 80 anos da Vó Nilza. Ele, que nunca foi de falar muito sobre sentimentos, quis fazer uma homenagem. Ele falou, muito emocionado, sobre como a vida dela tinha sido difícil, elogiando a força e a garra dela. Ele chorou de novo, e todo mundo se emocionou junto. Foi um momento muito bonito e marcante.

Vô Narcides sempre foi sinônimo de força, de trabalho, de resolver as coisas. Ele era sempre quem ajudava. Por isso, foi um baque quando, já mais velho, o acompanhei numa consulta de vista. Ele saiu do banheiro com a camisa abotoada toda errada, meio lento, aéreo. Fui ajudar a arrumar e, na hora, aquilo me deixou arrasada. Foi a primeira vez que senti que ele estava frágil, que precisava de ajuda.

O jeito dele de ensinar era vivendo. Não me lembro dele me dando conselhos. Ele simplesmente vivia de um jeito certo, de acordo com o que acreditava. Cuidava da alimentação, separava o lixo orgânico para o jardim do prédio e reciclava o que dava. E, mais que tudo, estava sempre se mexendo. Ele preferia mil vezes caminhar ou andar de bicicleta – tinha uma linda, meio cinza, meio verde. Mesmo com carro na garagem, andava muito de ônibus e ainda tinha o costume de descer um ponto antes, só pra poder andar mais. Uma vez, já com mais de 80 anos, mandou o motorista que tinham contratado ir comprar coco verde a pé, e foi junto. Em outra, o elevador do médico estava quebrado, e ele subiu dez andares de escada. Dizem que o cardiologista ficou tão admirado que falou que ele nem precisava de exame.

Hoje eu entendo que o jeito dele de demonstrar amor era o que chamam de “Atos de Serviço”. Ele adorava amolar facas e descascar tudo pra gente. Na geladeira nunca faltava coco verde, que ele já deixava sem a casca. Em época de jaca, ele tirava todos os bagos e deixava numa travessa, com um guardanapo por cima. Ele também descascava cana e um monte de laranjas. Deixava tudo prontinho pra gente comer à vontade. Era bom demais. E ele se orgulhava de gostar de umas coisas que pouca gente gosta, tipo jenipapo. Dizia rindo que era uma maravilha.

No fim, a influência dele em todo mundo foi pelo exemplo. Ele era ético, estudioso, trabalhador e uma pessoa que se importava com a justiça. Ajudava muita gente. Minha mãe e meus tios são muito assim. Meu irmão, André, desde novo quis uma vida mais simples, perto da natureza, e adora estudar idiomas, a cara do meu avô. E eu mesma mudei de carreira, da publicidade para a massoterapia, pra sentir que meu trabalho ajudava os outros de verdade. Acredito que aí também tem um dedo da influência de Vô Narcides.