Impossível Foi Conter a Emoção da Lembrança – Manoel Gusmão
Janeiro.2025
Falar de Narcides além de fácil é prazeroso, um homem dedicado ao trabalho, família, a sociedade em geral pela sua sabedoria, inteligência, observação , experiência dos conhecimentos bem visíveis e práticos da vida.
Conheci Narcides, sem me esquecer de Dona Inácia de muita sabedoria e de Dona Nilza também, quando tinha 15 anos, no início da amizade com Maurício e Jorge, logo observei em Narcides a sua veia carismática de orientação sempre com exemplos de vida bem nítidos, e eu gostava e observava, até porque como órfão aos 10 anos naturalmente gostava de conversar e acho que me espelhou, moldou e consolidou minha personalidade. Não esqueço nunca ele tomando sempre sol deitado no gramado e quando eu passava ele justificava a necessidade do sol quanto as vitaminas, dava uma aula.
Um fato marcante foi ter passado a cheia do ano de 70 no apartamento de cima de Carlos , estávamos assistindo um jogo a noite festivo da seleção brasileira e foi quando a água transbordou na Av. Rui Barbosa e em menos de uma hora começou entrar na casa de Narcides e eu dei um cochilo e quando despertei a água tinha subido no mínimo 1,5 metros cobrindo a pequena palmeira que tinha na frente da grade de entrada e eu me assustei pela velocidade de elevação e calculei que em mais 3 horas chegaria no andar de cima e o que faríamos? Pensei se chegar aqui em cima , iremos para o fôrro e lá teria 4 caixas d`água de 1000 litros uma de cada apartamento que suportaria e seria um bote para 5 pessoas era a possibilidade de salvação, mas eu estava assustado e atormentado, graças a Deus a água logo parou de subir, mas deixou- me um trauma que até hoje fico nervoso com uma chuva forte pelas lembranças das consequências das cheias.
Em poucos anos depois ficamos adultos, época do vestibular, faculdade, formatura, casamento naturalmente uma diminuição do convívio diário e caminhos distintos profissionais e familiares entre mim, Jorge e Maurício.
Sempre me encontrava com Narcides e Dona Nilza pelo bairro e conversárvamos sobre mim e sobre Jorge e Maurício, que começou praticamente a vida profissional fora de Recife.
Um dia ele já sabendo que eu andava de moto, ligou para mim e informou que Jorge tinha sofrido um acidente de moto, estava bem, mas, deduzo, queria me orientar do perigo. Fui fazer uma visita e foi o início da consolidação e do retorno da amizade.
Todo final de ano ele ligava para mim pedindo que fosse buscar um presente da Maguary, uma caixa com um suco de frutas, um doce em caldas e mais algumas coisas. E eu sempre ia na véspera de Natal já com a família Tânia e com certeza Américo que já era nascido e eu levava uma bandeja de cajus da casa de meu sogro.
Quando ele conheceu minha casa de veraneio observou que só tinha um coqueiro bem alto e ele, acho, que vislumbrando o perigo, me disse que o Grupo Tavares de Melo estaria importando um navio cheio de mudas de coqueiros “ anão” da Costa do Marfim e que arrumaria umas 4 mudas. Um certo tempo depois Narcides me liga e diz que as mudas chegaram que eu passasse em sua casa para pegar. Plantamos e aguardamos o crescimento , uns quatro ou 5 anos depois os coqueiros estavam bem desenvolvidos e não eram “anão” e continuavam a crescer. Quando nos encontrávamos nos fins de semana, na casa de veraneio que Jorge alugava, a conversa sempre voltava em tom de gozação: “Como é seu Narcides e os coqueiros anões!!! O senhor me enganou, esses coqueiros nunca foram da Costa do Marfim”, e dávamos grandes risadas. Me lembro agora que seu Narcides não dava gargalhadas exageradas e altas ele ria comedido no máximo cobria a boca para abafar a risada e essa história sempre voltava nos nossos encontros casuais.
Outra história de Narcides era ele contava , evidentemente que eu sempre relembrava, era a da cobra de canavial no engenho de sua família em Macaparana, quando criança. A cobra correu atrás dele, por quase uma hora até ele se desvencilhar da cobra já cansada e ele conseguiu entrar em casa. Engraçado ele contando, porque ele não se continha de rir.
Me lembro das histórias do Volks na oficina para fazer revisão, o mecânico dizia que não tinha nada para fazer e ele achava que deveria ter.
Quase todos os sábados ele passava na Peçafrio e conversávamos por 30 minutos, uma pausa em suas caminhadas, que sempre tinha uma finalidade prática, estava sempre procurando ou comprando alguma coisa para Dona Nilza.
Narcides sempre em suas histórias falava da Serra do Pirauá não me lembro se ficava em Macaparana, mas sempre tinha uma história do melhor café, o melhor algodão, a melhor cana de açúcar… dava na Serra do Pirauá. Sempre dizia que um dia iriamos à Serra do Pirauá, mas o destino nunca nos presenteou.
Falar de Narcides foi fácil, impossível foi conter a emoção da lembrança.
Parabens ao ser humano que foi Narcides.