De Macaparana para o Mundo – Alberto Furtado
Fevereiro, 2025
Para mim, Tio Narcides foi mais do que um tio; ele se tornou um pilar. Quando meus pais se separaram, eu tinha apenas 12 anos, e foi na figura dele que encontrei a presença masculina e o porto seguro que precisava. Ele era um tio presente, que irradiava uma confiança que acalmava não só a mim, mas também à minha mãe. Naquela fase tão delicada da vida, foi através dele que senti, de forma muito clara, o valor e o imenso amor que ele dedicava à nossa família.
As lembranças que guardo dele são vívidas e repletas de afeto. Lembro das rodas de conversa onde ele contava seus “causos”, mesclando uma seriedade quase solene com um amor tão grande que, no fim, todos caíam na gargalhada. E ele adorava repetir suas histórias, mesmo sabendo que já as conhecíamos, o que tornava tudo ainda mais cômico e especial. Guardo também com carinho a imagem dele ouvindo Maurício contar algo, pois ele ria com um gosto, uma alegria contagiante.
Um gesto dele me marcou para sempre. Certa noite, comentei que meu grande sonho era ter uma bicicleta. Sem alarde, sem promessas, no dia seguinte, ele simplesmente apareceu com uma bicicleta para mim. Mas a memória mais comovente que tenho é a de vê-lo falar de Dona Inácia, a mãe de criação de tia Nilza, sua “sogra”. Ele não conseguia se conter; toda vez que tocava no nome dela, ele se emocionava e chorava. Eu era pequeno e não compreendia a dimensão daquela dor, mas ver como o amor por ela o tocava de forma tão intensa me sensibilizava profundamente.
Além do afeto, Tio Narcides foi meu primeiro grande mestre. Ele me ensinou a pensar. Com seu forte senso crítico, ele analisava tudo buscando a raiz e a causa dos problemas, ensinando-me a raciocinar e a fazer uma análise profunda dos fatos. Ele era um questionador com posições firmes, o que alguns poderiam confundir com radicalismo, mas que para mim era a expressão de seus valores corretos e de seu imenso caráter, seja na política, na cidadania ou na família. Essa influência ficou eternizada quando passei no vestibular para agronomia. Ele me presenteou com o livro “Geopolítica da Fome”, de Josué de Castro, e disse palavras que nunca esqueci: “Você vai ajudar a produzir alimentos, mas você tem que entender o problema da fome”.Por tudo isso, se eu tivesse que resumi-lo, eu diria: “De Macaparana para o mundo: um homem de vanguarda”. Porque ele, um homem de origem humilde e rural, construiu para si um pensamento crítico e uma sensibilidade que o colocaram sempre à frente do seu tempo, fosse nas ciências, nas artes ou no campo social.