As Doces Memórias do Meu Avô – André Araujo D’Oliveira
Janeiro, 2025
As lembranças mais vivas que guardo do meu avô, Narcides, são tingidas pelo verde dos passeios campestres. Nossas visitas aos sítios do Sr. Andrade e do Sr. Arlindo, e os dias no Clube de Campo Canto Alegre, eram rituais sagrados. Em meio à natureza, ele suspirava e dizia que, se um dia comprasse uma terrinha, seria em Aldeia. Esse amor pelo coletivo se refletia em tudo: foi um síndico querido, de alma socialista, que sabia como ninguém cuidar do que era de todos.
Meu avô era um homem de presenças e silêncios. Atencioso, sempre. Carinhoso, nem sempre. Sua atenção se revelava nos detalhes: na forma como cuidava com esmero do seu jardim, especialmente das pimentas biquinho, ou no hábito de mastigar de olhos fechados, como se saboreasse o mundo em sua própria dimensão.
Ele tinha conhecimentos peculiares que adorava compartilhar, como explicar que a lecitina de soja era o segredo para a textura do sorvete ou insistir que as frutas deveriam ser sempre consumidas antes das refeições. Pequenos rituais, como o cálice de vinho branco, faziam parte do seu dia a dia. Sua caixa de ferramentas, com uma riqueza de utensílios que serviam a ele e a quem mais precisasse, era uma metáfora de sua generosidade.
Seu mundo interior era rico e sonoro. A trilha sonora da minha infância com ele era “O Trenzinho Caipira” na versão instrumental de Egberto Gismonti e os LPs das “Quatro Estações” de Vivaldi. Foi no seu escritório, entre livros e a revista Speak Up que ele assinava — de onde me lembro de uma linda canção da Mariah Carey —, que senti o primeiro impulso de escrever cartas, de me conectar com o mundo através das palavras.
Mas, talvez, o maior ensinamento que ele nos deixou foi o valor de estar presente. Aprendemos com ele a ser visitadores de familiares e amigos. Lembro com profundo agradecimento das visitas que fazíamos, junto com ele, à tia Anita e ao tio Oscar, que eram vegetarianos, e das idas rotineiras à Acerolandia para buscar picolés. Para meu avô, a lição era simples e poderosa: “ser atencioso com os outros já é uma recompensa”. E essa, sem dúvida, é a herança mais bonita que ele poderia ter deixado em nós.