A Evolução: Da Resistência à Harmonia – Alexandre Fontoura
Maio.2025
Já faz alguns bons anos que deixei a cidade do Recife, para retornar à cidade de onde havia saído, São Paulo. Foram 8 anos de muitas histórias, contos, experiências e aventuras, aprendizados a novos hábitos e culturas assim como a formação de novas (e sólidas!) amizades.
Eu havia sido transferido para o Recife, capital de Pernambuco, para assumir a direção regional de uma multinacional muito grande na área de serviços de inspeções e testes. Por lá fiquei durante 2 anos, e, dentre os diversos clientes que tínhamos, alguns deles acabaram tendo uma maior empatia com a gestão que eu implementava na empresa.
Houve, num determinado momento, o convite para que eu assumisse a área de Comércio Exterior de um dos grupos mais renomados do setor sucroalcooleiro do Brasil: o Grupo Tavares de Melo.
O desafio era grande pois tratava-se de uma conta considerável na conta da receita da empresa e também a assunção de uma equipe já formada e com alguns colaboradores muito antigos e de confiança da direção da companhia, o que tornava o desafio, sob o ponto de vista da gestão de pessoas, algo bastante especial.
Particularmente falando, eu sempre fui uma pessoa voltada a trabalhar em equipe. Sempre tive a crença de que não se consegue nada se estivermos sozinhos em uma empresa. O trabalho em equipe e o clima organizacional devem sempre prevalecer e a comunicação transparente e responsável é uma ferramenta para o alcance dos objetivos propostos.
Dessa forma e com este pensamento fui conhecer não só o trabalho, mas também as pessoas que faziam parte do time.
A divisão comercial era formada por 2 (dois) departamentos, a saber: departamento comercial / vendas de açúcar para o mercado interno e departamento de comércio exterior + vendas de etanol para o mercado interno e externo.
A área de vendas de açúcar para o mercado interno era capitaneada por nada menos que Roberto Luna, um ás no trato comercial e pessoa de fácil trânsito pela empresa e pelo mercado. Afinal, já trabalhava há anos na empresa e levava o crédito do belíssimo trabalho desenvolvido no mercado brasileiro com a marca do famoso “Açúcar Estrela” em suas mãos.
A equipe comercial era bastante sólida e os processos fluíam muito bem. Todos sabiam de suas obrigações e responsabilidades e eram como uma orquestra muito bem afinada com o seu regente sob o comando de suas notas!
O que faltava um pouco do que chamamos de “O & M” – organização e método era na área de Comércio Exterior e Vendas de etanol! A equipe estava órfã de uma liderança e um sistema de gestão e governança no trabalho e isto atrapalhava um pouco a performance do departamento. Trabalhavam de forma desordenada, como se fossem ilhas isoladas, sem uma comunicação efetiva e sem qualquer empatia entre os colaboradores. Esse cenário resultava em um clima organizacional desarmonioso e fragmentado, prejudicando o reconhecimento da importância de cada membro da equipe dentro do contexto empresarial.
Dessa forma, iniciamos a implementação de um sistema estruturado de governança e gestão, trazendo métricas claras, definição de processos e metodologias que trouxeram maior previsibilidade e eficiência ao setor.
Com a nova estrutura organizacional, as funções foram melhor definidas, estabelecendo-se um fluxo de trabalho mais integrado e eficiente. A implementação de processos claros ajudou a criar um ambiente mais colaborativo, eliminando as barreiras entre os setores e promovendo maior alinhamento estratégico.
Assim, fomos conhecendo cada um dos colaboradores da equipe.
O grupo era bastante heterogêneo: havia jovens talentos que sentiam sede de conhecimento bem como pessoas mais maduras que já dominavam o que entendiam por fluxo processual e executavam seus trabalhos sem compartilhar seus feitos, vitórias ou mesmo os fracassos trazidos quer pela falta de gestão ou mesmo pela falta de ferramentas de trabalho para ganhos de eficiência.
Neste contexto, trago aqui a memória de uma pessoa que, em princípio, não acreditava muito nas mudanças e se mostrou resistente aos processos de implementação de uma nova gestão. Esta pessoa chamava-se Narcides Araújo.
Tive que fazer toda esta contextualização para poder chegar ao seu nome. Seu Araújo (como ele era conhecido) era uma pessoa já de certa idade e bastante reticente aos métodos modernos de gestão. Logo no início de nosso trabalho, trouxemos dinâmicas que foram introduzidas para promover a colaboração e a valorização individual dentro do coletivo. Precisávamos criar um ambiente de trabalho harmonioso, e por isso foram incentivados feedbacks estruturados, reuniões de alinhamento e um sistema de reconhecimento de desempenho. O objetivo era que cada profissional não apenas compreendesse sua função, mas enxergasse seu impacto dentro de toda a cadeia de valor da empresa. E o Seu Araújo era uma das peças que precisávamos de feedback, pelo notável conhecimento que tinha de Comércio Exterior e suas derivações.
Houve muita resistência de Seu Araújo no início. Ele achava que tudo isso era uma “tremenda besteira” e que não tinha tempo para participar de reuniões gerenciais ou mesmo na abertura e compartilhamento de suas experiências ou mesmo na descrição de suas atribuições junto ao grupo.
A sua experiência e conhecimentos sólidos sobre a legislação internacional aliados ao nível de confiança existente entre ele e a Diretoria do Grupo Tavares de Melo, eram ingredientes importantes na sedimentação do processo de resistência ao novo, ao sistema de governança que queríamos implementar. Ele reagia ao processo de mudança com um certo olhar de desconfiança, pois, em nenhum momento de sua trajetória profissional no GTM, tinha havido uma inferência tão grande sobre o seu trabalho e suas responsabilidades. Estava como um felino tendo sua territorialidade sendo ameaçada de invasão. Estava na defensiva, observando cada movimento dado.
Realmente a estratégia com Seu Araújo tinha que ser diferente!
Seu Araújo era dotado de uma inteligência diferenciada. Cuidadoso com as palavras, sempre se mostrava muito seguro do que dizia e, por muitas vezes, quando questionado dos métodos de trabalho, se sentia incomodado. Era paradoxal este comportamento, pois, ao mesmo tempo que ele sentia a vontade de mudar, vinha na contramão a força da resistência que impedia e criava barreiras entre a nova gestão e suas crenças gerenciais. Queríamos ajudar a melhorar seus processos, mas precisávamos de sua ajuda e colaboração para que pudéssemos avançar nos fluxos operacionais.
Nossa convivência no início foi muito cordial. Ele tinha plena consciência da estrutura organizacional montada e que ele fazia parte do time. Faltava somente uma integração maior e a confiança de que nossos objetivos eram os mesmos! Eu tinha que ter doses de paciência e muita estratégia política para trazer Seu Araújo para o time.
Narcides Araújo era um exemplo raro de profissionalismo e dedicação. Extremamente ético, sempre agiu com integridade e responsabilidade em todas as suas funções. Sua postura era inabalável diante de qualquer desafio ou pressão do mercado, garantindo que todas as operações estivessem sempre em conformidade com as normas e regulamentos do setor. Para ele, seguir as diretrizes e agir de forma transparente não era apenas uma obrigação, mas um valor inegociável.
Seu profundo conhecimento técnico fez dele um especialista altamente respeitado no comércio exterior. Por onde andava, era reverenciado e amigo de todos, o que era traduzido por um respeito inabalável entre todos. Ele dominava os processos burocráticos e regulatórios com uma precisão impressionante, garantindo que cada operação fosse conduzida com máxima eficiência e segurança. Sua capacidade analítica permitia antecipar possíveis obstáculos e preparar soluções antes mesmo que os problemas surgissem, tornando-se uma peça-chave para a empresa.
Resoluto e determinado, Seu Araújo não se deixava abalar por contratempos. Sempre encontrava maneiras de otimizar processos e melhorar o desempenho do setor, sem jamais comprometer a qualidade ou os princípios que norteavam seu trabalho. Sua presença trazia segurança para a equipe e inspirava confiança em seus colegas e superiores.
Existem várias passagens curiosas e que marcam, efetivamente, seu estilo de trabalho. Seu Araújo deixava tudo anotado em cadernetas ou mesmo papéis, como se fossem guias ou listas de coisas a fazer que davam a ele, uma noção bastante grande do tempo necessário de seu trabalho para cada processo de exportação. Era meticuloso e metódico, e isso era uma de suas marcas.
Eu bem me lembro que, em determinado momento, iniciamos a implementação dos “Princípios de um Sistema de Gestão de Qualidade” em nosso escritório, através da implementação da ferramenta 5 S – uma metodologia de gestão japonesa que visa organizar, padronizar e limpar o ambiente de trabalho.
Pronto!! Isso foi o suficiente para tirar a paz do Seu Araújo por alguns dias, afinal, o tal 5 S iria exigir dele uma maior organização com os papéis de sua mesa, algo intocável até então!!
Foi através de algumas auditorias internas por mim conduzidas que comecei a perceber algumas curiosidades bem características do Seu Araújo. A começar pelos objetos que ele tinha em suas gavetas: trazia guardado peças de uso pessoal como bússolas, tesouras, material de estudo da língua inglesa e outros idiomas também, uma pequena farmácia particular, alfinetes e agulhas, lentes de aumento, e muitas sementes de abóbora e algumas frutas da época. Sem contar com uma mesa acessória que havia em seu gabinete, onde repousava triunfalmente uma legitima máquina de escrever Olivetti elétrica, de onde saíam diversos romaneios de embarque, drafts de documentos de embarque, conhecimentos de frete marítimo, dentre outros documentos, além de papéis carbono e um cesto de lixo que se alimentava de documentos que eram teclados com algum erro de datilografia.
Sim, evidente que tínhamos que doutrinar Seu Araújo aos conceitos e princípios da qualidade …. porém tínhamos também que respeitar seus hábitos e rotinas. Tudo tinha de ser muito convincente para que Seu Araújo não disparasse alguma alfinetada contra o novo regime de gestão que estava sendo implementado.
Diga-se de passagem, as mudanças implementadas na área comercial como um todo teve um mérito do coletivo. Sem a ajuda de todos e a dedicação na absorção de novos processos, certamente não teríamos êxito nos trabalhos e nem o voto de confiança do Seu Araújo para aceitar e perceber que as mudanças vinham para melhorar o departamento, e consequentemente melhorar a eficiência da área.
À medida que o tempo passava e os resultados se tornavam evidentes, a equipe começou a perceber uma transformação palpável em sua rotina. Antes dispersos e desalinhados, os colaboradores agora enxergavam um propósito maior em suas funções. As informações fluíam com mais clareza, os processos decisórios se tornavam ágeis e precisos, e as tarefas, antes desgastantes e confusas, passaram a ser executadas com um senso renovado de propósito e eficiência.
O impacto não foi apenas técnico ou processual – a mudança reverberou no clima organizacional. O ambiente antes tenso e fragmentado deu lugar a uma atmosfera mais leve, onde o respeito e a colaboração passaram a ser pilares essenciais. A rigidez cedeu espaço para um convívio mais harmonioso, onde as pessoas se sentiam valorizadas e compreendiam a importância do seu papel dentro da engrenagem maior da empresa.
Fruto das dinâmicas aplicadas, das diretrizes implantadas e da mudança de mentalidade, o setor que antes operava como um conjunto de ilhas isoladas finalmente se tornou uma equipe unificada. Os desafios do dia a dia ainda existiam, mas agora eram enfrentados com um espírito de cooperação, onde cada vitória era comemorada e cada obstáculo, superado coletivamente. O que antes era resistência, agora se traduzia em comprometimento. O que antes era desorganização, agora era método e excelência. E Seu Araújo, vendo toda essa mudança, começa a se interessar por isso e estar mais aberto a ouvir opiniões acerca de seu trabalho e procedimentos operacionais.
Seu Araújo sempre foi uma pessoa muito querida por todos. Apesar de sua idade avançada, sempre era pontual e nunca faltava aos seus compromissos profissionais. Era um exemplo neste particular e se tornou uma referência para os mais jovens neste sentido.
Certa vez, após reunião gerencial, Seu Araújo me chamou para um bate-papo reservado. Achei a atitude um pouco estranha, porém fiquei confiante em perceber a vontade dele de expressar e querer colaborar nos processos. Enfim, ele queria fazer um pedido: já estávamos na pós virada do século 20 para 21 e ele queria aprender algo novo: estava sedento por novos conhecimentos. Começamos a conversar e chegamos à conclusão que Seu Araújo tinha que mergulhar na era digital e precisava “aposentar” a sua amiga de muitos anos, a máquina Olivetti.
Imediatamente conseguimos um computador para Seu Araújo para iniciar no mundo da digitalização da informação. No início, seu Araújo parecia uma criança absorta num mundo de infinitas possibilidades: o mundo da informática!!!
Todos da equipe abraçaram a ideia e começaram a estimulá-lo com leituras de manuais, algumas aulinhas práticas de uso das ferramentas do Office, nas descobertas dos comandos dados nos textos, enfim… abria-se um novo portal para ele, e que ele, de forma madura e inteligente, abraçou com toda a força para si.
Não era de se espantar a sua capacidade de absorção de conhecimento, mesmo diante de algo que poderia ser um grande desafio no seu trabalho. Ao contrário, Seu Araújo se fez valer de sua capacidade intelectual para aprender rapidamente o uso de seu novo instrumento de trabalho e perceber os ganhos de tempo e de produção que teria com ele.
Mas o mais importante disso tudo foi a sua abertura para se comunicar de forma aberta com os jovens que o cercavam no trabalho. Todos, de forma muito respeitosa e carinhosa recebiam Seu Araújo como um colega de maturidade elevada, porém de alma jovem e que estava ali disposto a aprender e aplicar na prática seus novos conhecimentos advindos de conversas com seus pares.
Esta mudança de comportamento foi fundamental para que pudéssemos dar um grande salto de qualidade no clima organizacional da área comercial. Estávamos finalmente constituindo um grande time vencedor, aliando a força juvenil de alguns colegas com a maturidade e conhecimentos técnicos do Seu Araújo. A integração foi tão grande que, num dado momento, no intervalo de almoço que tínhamos, eu fui testemunha de uma “guerra de bolinhas de papel” no escritório, e Seu Araújo se fazia presente com seu pequeno arsenal de bolinhas em sua mesa, se divertindo com os amigos de trabalho.
Pode parecer meio antagônico o que acabo de contar diante de tantas regras e procedimentos implementados, mas, ao final desse momento de recreação, todos eram conscientes de suas ações e recolhiam todo o material para, novamente, estabelecer a ordem no ambiente de trabalho. Porém, agora de coração feliz e alegre, pois o ambiente era bastante familiar e amigável no trabalho. E isso se devia muito pelas mudanças comportamentais vistas no time e principalmente no Seu Araújo!!
Os laços de amizade criados entre nós eram muito fortes. Sabíamos respeitar a liberdade de cada um, pois tínhamos a perfeita noção das necessidades e anseios de cada um do time, sempre observando o limite estabelecido para a boa convivência coletiva. Digo isso pois Seu Araújo tinha alguns hábitos que tinham de ser respeitados. Um deles era o seu cochilo no horário do almoço. Ele se aprumava em sua cadeira, e sem que ninguém percebesse, dava sua descansada para reabastecer suas energias.
Outra característica bem interessante era seus hábitos alimentares muito bem controlados por ele mesmo. Seu Araújo vivia mastigando suas sementes de abóboras salgadas e dizia que era um elixir para o intestino, melhorando a flora intestinal dada a quantidade de fibras que continha. E tinha sempre em mãos um pouquinho para compartilhar com quem quer que seja!!
Sem contar com as vezes que descascava uma mexerica no escritório e colocava seu bagaço e suas cascas no lixo de sua mesa, deixando o ambiente do escritório totalmente perfumado com o óleo essencial da fruta cítrica. Era um apaixonado por botânica, sempre se via interessado por este tipo de conteúdo.
Pela minha formação de Engenheiro Agrônomo, emprestei alguns livros sobre plantas medicinais a ele, que prontamente era digerido e algumas semanas depois, vinha com alguma pomada ou floral descoberto com a leitura.
Com o tempo, Seu Araújo virou um amigo nosso. Chegou até a participar de encontros que eu fazia em casa, como celebração a algum alvo conquistado ou mesmo alguma celebração de fim de ano. Agora, para a equipe, nada fazia sentido sem ter Seu Araújo ao nosso lado!!
Uma pessoa que tinha nosso respeito como profissional e agora tinha também nosso carinho e amor pela sua transformação comportamental dentro da empresa. Era notória a alegria que o acompanhava para trabalhar na equipe da área comercial, e do orgulho que tinha de seus afazeres e suas obrigações perante a Gerência e a Direção da empresa. Seu Araújo se tornou assim, uma prova viva de que a mudança se inicia dentro de nós, sempre!!